Ultra Carnem: um livro explícito 

Ultra Carnem é o primeiro livro publicado do autor brasileiro Cesar Bravo e vem em uma edição impecável (como sempre) da DarkSide Books. Quando eu vi a capa, a sinopse e o nome de um brasileiro a frente da literatura de horror só consegui pensar uma coisa: PRE CI SO. E foi assim que eu adquiri Ultra Carnem, parcelado no crédito por que crise, né, mores.

O livro a princípio parece uma antologia de quatro contos que se passam em épocas e locais distintos. Porém, ao longo da leitura, percebemos que todos esses contos se conectam a uma mesma história e a um mesmo objetivo: a disputa entre o céu e o inferno. Tudo começa com um garotinho cigano chamado Wadmir Lester, que chega a um orfanato católico com seu dom para a pintura e um vidrinho de tinta super misterioso (que se mantém assim até quase o fim do livro). Que choque não tive ao terminar o capítulo e não ver a continuação  da história na sequência. No segundo capítulo, acompanhamos outro personagem: Nôa, um pintor em crise que está em busca de inspiração. A terceira história é sobre Marcos Cantão, um técnico de informática fracassado que tenta melhorar de vida através de objetos mágicos de uma estranha loja da sua cidade. E, finalmente, temos a história de Lucrécia, uma garota problemática, que foi abusada na infância e agora está fazendo amizade com o sete-pele.

A leitura é uma das mais fluidas que já experenciei. A escrita de Cesar Bravo nos dá vontade de continuar, e continuar, e continuar, até que já passou da hora de dormir e você ainda está lá, entretido com as peripécias do diabo e com a ganância do ser humano. O livro é repleto de gore (muito sangue e coisas nojentas), se você é fraco pra isso, pode ter alguns problemas. Eu gosto muito de ler durante o almoço, mas um dia me arrependi ao dar uma garfada enquanto lia isso:

“Foi desfazendo o embrulho sem deixar que rasgasse.  Era um papel grosso, plastificado por dentro, como o papel onde se embrulham queijos e apresuntados nos supermercados. Levou a coisa até a mesa e continuou a abri-lo cuidadosamente. Quando terminou, precisou conter o vômito. 

Um pouco de carne, uma orelha e dois dedos” 

Explícito é o adjetivo perfeito para esse livro. Com um quê de Clive Baker (Hellraiser – Renascido do Inferno, título disponível também no catálogo da DarkSide), a narrativa evidencia não só a violência, como também as motivações do ser humano, como o próprio título sugere (Ultra Carnem vem do latim, “além da carne”). Seres humanos esse que são bem construídos narrativamente.

Mas, como eu sempre digo: nem tudo são flores. E o que não é flor, nesse caso, cheira bem mal. Um ponto fraco do livro está nas representações de algumas personagens, principalmente das mulheres. Começamos com a representação do menino cigano, que esculacha o preconceito que nossa sociedade tem com essa população. Nas histórias seguintes, as mulheres representam todo tipo de estereótipo que já nos cansamos (pelo menos eu já cansei) de ver por aí na literatura e no cinema. Não são mulheres ativas, pelo contrário, estão presentes apenas para satisfazer os personagens masculinos ou  servir de instinto maternal (o caso de Liza, a esposa de Nôa, que, apesar de sofrer na mão dele, sempre acaba voltando para cuidar do pobrezinho). Mas as piores representações estão no terceiro conto. Marcos Cantão é um homem desprezível, a forma como ele descreve sua mulher me fez querer vomitar, mais do que na parte dos dedos cortados! Além disso ele cobiça a filha “novinha” do patrão. Como se não bastasse, em seu conto tem uma passagem que eu pensei “ce jura que eu tô lendo isso???”:

“Um baita negão (afrodescendente de porte grande e musculoso)…”

Ironiazinha entre parêntesis pra cima de moi? Não! Esse terceiro conto quase me fez parar de ler o livro, mas eu sou muito persistente e a escrita é bem cativante, realmente, por isso continuei!

Ao chegar no último conto tive uma surpresa ao ver que a protagonista seria um mulher. Mas acaba que vem mais estereótipo: O da mulher forte, que só é forte por que foi abusada.

É um pouco triste ver tanto estereótipo colocado em uma obra que tem uma narrativa espetacular! Mas, apesar de todos os pesares, eu acho que vale a leitura. Inclusive por que você pode não ver essas representações como eu vi, então nada melhor do que conferir por você mesmo! E, como vimos ao longo do texto, a arte gráfica é simplesmente deslumbrante!

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